Será que aprendemos o suficiente para viver um “novo normal” ?
Neste domingo (28) completo 100 dias de isolamento social. Parei para revisar o longo dos dias de confinamento e entender o que nos levou até aqui em meio a tantos acontecimentos em uma mistura de solidão e solitude, do estar só sem deixar de ficar sozinho. Em meio ao caos generalizado, experimentamos um turbilhão de sentimentos. Medo,apreensão,angústia, insegurança, raiva entre tantas coisas sentidas que influenciam (direta e indiretamente) no nosso bem estar físico e psicológico permearam a nossa rotina, dia após dia.
Nestes dias tão intensos, mesmo dentro de casa, recebemos um bombardeio de informações. Muitas coisas aconteceram e outras estão por acontecer. A Pandemia evoluiu, de “gripezinha” se tornou uma grande crise sanitária descontrolada, que ganhou contornos políticos a cada fala pormenorizada do atual presidente. Do descaso com as vítimas da COVID 19, ganhamos os holofotes do mundo inteiro. Em 100 dias, o Brasil conseguiu a façanha de ser um dos epicentros com mais de 1 milhão de casos e quase 60 mil mortos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Muito se descobriu, muito se sentiu e muito se viveu. Nestes dias, que contamos os mortos aos montes e os enterramos em covas coletivas, vimos a verdadeira face de nosso povo, outrora tão festeiro, tão afetivo, desromantizada em “pequenas” escapadelas que incentivaram a sentimentos de uma aparente normalidade que ficaram no passado. A elite brasileira, enfim, mostrou a sua verdadeira cara, tão fascista e tão cruel. Tudo escancarado e mostrado as claras em rede nacional. Nada que uma pandemia não revelasse tanto sobre a formação de nossa sociedade (ou parte dela), tão egoísta e mal educada.
Aos acenos de um presidente desesperado com a perda de sua popularidade,grupos extremistas e barulhentos ameaçavam os nossos dias passeando com tochas nas madrugadas frias de Brasília.O racismo nunca foi tão sentido,tão visto como agora, seja nas balas que tiraram a vida do jovem João Pedro, na asfixia sofrida por George Floyd ou mesmo na “fatalidade” que fulminou João Miguel, um garoto de apenas cinco anos de idade.
Na esteira destes acontecimentos, o COVID 19 revelou a nossa pobreza, em todos os sentidos. Nunca tantos pretos e pobres perderam suas vidas como agora. Entre a fatídica reunião ministerial e a prisão de Queiroz, muitos morreram por conta de um estado negligente, aliada a ignorância de uma parte da população que insiste em vencer a realidade pelo cansaço. E nem mesmo o auxílio emergencial de R$ 600 cobre as nossas mazelas em meio ao caos estabelecido.
Nesta guerra contra uma partícula nano invisível, o ser humano se viu vulnerável, esvaziado e humilhado na sua arrogância de ter o domínio de tudo. Líderes mundiais nunca se mostraram tão preocupados com os mortos aos milhares.A ciência nunca avançou tanto em pouco tempo nas pesquisas e descobertas de vacinas e antivirais. Nunca tudo andou tão lento e,ao mesmo tempo, tão rápido em um mundo tão globalizado e tão interligado em tempo real.
Se dentro de casa, a percepção é de que a vida pára e a noção de tempo se perde no espaço, lá fora a natureza se recompõe. Nestes dias, enquanto a COVID 19, aliada a negligência de alguns governantes, tirava vidas, a vida na natureza renascia, se recompondo em todos os detalhes. No ar puro, no canto dos pássaros, nas águas límpidas de rios e mares, o planeta se refaz e a vida se regenera.
De março para cá a nossa vida deu uma grande guinada, muitos se ressignificaram em seus talentos e se redescobriram, por dentro e por fora. Muitas decisões foram tomadas, muitas ainda estão por serem tomadas, muitos casamentos foram desfeitos, outros fortalecidos. Conceitos foram revistos sobre tudo ( ou quase tudo) e a vida se incumbiu de transformar ou revelar a verdadeira face das pessoas diante de uma calamidade sanitária. Em 100 dias, talvez não víssemos o bastante para ter vivido uma grande mudança de hábitos, algo que será sentido no dia a dia mais para a frente
Lições para um breve futuro
Muitos estão na expectativa para a chegada deste “novo normal”, tentando ultrapassar a barreira do medo e das incertezas que rondam os gráficos exponenciais da pandemia, fora os maus hábitos dos nossos “amáveis teimosos”, que insistem em quebrar as regras primordiais da quarentena. Para além deste futuro tão esperado por todos, estão as promessas de uma normalidade segura. Talvez as lições não sejam suficientes para que os governantes invistam em políticas sanitárias e a população mude suas noções de higiene e exercite a solidariedade, assim como a empatia no cotidiano.
Durante estes três meses, muitas marcas foram deixadas e não estou falando dos recordes que dizem muito sobre a nula atuação do governo brasileiro na pandemia, mas sim das lições que aprendemos desde os primeiros dias que ficamos confinados em casa. Para além das consequências econômicas e políticas, vamos viver as marcas psicológicas dos últimos dias, a estafa, as lágrimas e o estresse de uma rotina quebrada e da necessidade de sair e se colocar em risco também são lições de paciência e insistência. Aprendemos muito sobre preservação da vida e que ela é um bem importante. Essa lição, aliado ao apanhado geral feito durante os 100 dias de isolamento social, ficará para esta e para as próximas gerações em um breve futuro e em um futuro um pouco mais distante.