Em uma das sessões do Supremo Tribunal Federal (STF), ocorrida em um domingo de eleições, a ministra Cármen Lúcia recorreu a uma analogia que desvela o cuidado que a sociedade brasileira deve ter com a democracia. Ela evocou suas origens no norte de Minas Gerais, lembrando com afeto do trato que seus pais tinham com o pé de roseira cultivado no quintal, em meio às condições áridas do sertão.
Durante sua fala, a ministra recordou que a democracia exige zelo constante. “Erva daninha cresce sem cuidado, roseira não.” A metáfora é cristalina: valorizar os espaços de luta, conviver com as divergências e preservar os pilares da democracia são atos que exigem vigilância diária. Quem transgride esses limites, compactua com a degradação da convivência social, alimentando desejos individuais em detrimento do bem comum.
No julgamento da trama golpista que condenou Jair Bolsonaro e seis envolvidos, Cármen Lúcia teve um voto decisivo, somando-se à maioria formada pelos ministros Alexandre de Moraes, relator da denúncia, e Flávio Dino, antes do parecer final do presidente da sessão, Cristiano Zanin. A precisão de sua fala, em um período bem anterior ao momento mais decisivo do sufrágio pela condenação, deixa um alerta inequívoco: a democracia, se negligenciada, corre o risco de ser sufocada pelas ervas daninhas da intolerância, do autoritarismo e da indiferença cívica.
A imagem da roseira ressoa como um chamado ao país: a democracia não floresce por acaso, tampouco sobrevive sozinha. Requer vigilância, participação cidadã, compromisso com a verdade e instituições sólidas. É uma lição que transcende decisões judiciais; alcança cada cidadão, que também deve cultivar esse jardim coletivo. Diante de tantas ameaças, no Brasil e no mundo, aderir à democracia sempre será o último grito contra a opressão.
Mais do que uma decisão jurídica, o processo, que se estendeu por duas semanas, teve caráter simbólico. A lição que emerge de anos de ameaças às instituições é clara: é preciso arrancar as ervas daninhas antes que se espalhem pelo canteiro. Entre votos e togas, a democracia mostrou que ainda pode florescer — mas somente se houver mãos firmes e olhos atentos, prontas para regá-la com coragem, responsabilidade e vigilância diária. Porque jardins abandonados não florescem; apodrecem.