Na tarde do dia 08 de janeiro de 2023, estava sentado em frente a tela do notebook, acompanhando os desdobramentos daquilo que seria uma tentativa de golpe de estado contra os três poderes em Brasília. Via, atonitamente, pessoas animalizadas e avidas por destruição, avançando sobre os prédios como se fossem pertencerem a um tsunami de proporções maiores, levando e derrubando tudo o que passava pela frente. Lembro que mais cedo, antes do ato acontecer, lancei um texto que fiz sobre as palavras ditas pelo então ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, em sua posse. Nós, cidadãos de pensamento progressista, estávamos extasiados com tudo aquilo que foi dito: “Vocês existem e são valiosos para o governo. ”.
Foi uma semana inteira nutrindo esperanças de um país melhor, onde pudéssemos mergulhar no mar calmo do Estado Democrático de Direito. Achavamos que com a posse de Lula, tudo pudesse estar resolvido, a extrema direita, enfim, aceitaria o papel de oposição responsável e o país entraria no “modo normal” após quatro anos turbulentos, ledo engano. O que parecia calmaria, virou pesadelo. O sinal amarelo foi dado e os defensores da democracia ficaram em alerta.
Naquele 8 de janeiro, Brasília se transformou em palco de uma coreografia macabra: o caos vestido de verde e amarelo, mascarado de patriotismo, mas alimentado pelo ódio, pela ignorância e pelo ressentimento de quem não sabe conviver com a pluralidade. Era como se a História tivesse se erguido diante de nós, mais uma vez, para colocar a resistência da nossa democracia,recém-renovada, em teste. Não havia dúvida: aquilo não era apenas vandalismo. Era a materialização de um projeto de poder que não suporta a diferença, que prefere a violência ao diálogo, que se embriaga da mentira e da manipulação como forma de sobrevivência política.
E, no entanto, a cena também nos revelou uma verdade amarga: a jovem democracia brasileira é frágil, mas não está morta. Ela sangra, tropeça, mas resiste porque há quem a defenda com unhas e dentes. Nos olhos perplexos de milhões que assistiam de casa, havia também uma determinação silenciosa — a de não permitir que o autoritarismo marchasse novamente sobre as nossas ruas. Foi o dia em que aprendemos, à força, que a democracia não é um ponto de chegada, mas fruto de uma luta coletiva e diária. E que, se quisermos um Brasil justo, plural e humano, precisaremos ser sentinelas permanentes desse bem coletivo chamado liberdade.
No dia seguinte, com o rescaldo da destruição estampado nas vidraças partidas, nas obras de arte mutiladas e nas togas simbolicamente rasgadas, pairava a pergunta que não calava: haveria ainda democracia suficiente para resistir ao veneno da intolerância? A imagem dos governadores, de diferentes partidos e ideologias, marchando juntos ao lado de Lula pelas ruas de Brasília, ergueu-se como um gesto simbólico e poderoso, um remendo de esperança sobre a tentativa mau fadada de rasgar o tecido da República. Ali, na união forçada pela barbárie, nascia a demonstração de que as instituições não eram meros prédios atacados, mas uma ideia viva, sustentada pela coletividade. Foi um sopro de fôlego em meio ao entulho: a lembrança de que a democracia só se mantém de pé quando os que a defendem se reconhecem no dever de preservá-la, mesmo em meio às ruínas.
Com a reação dada por meio da prisão dos golpistas na Papuda e na Colmeia, acuados pelas forças de defesa, a ordem era achar os responsáveis pelo plano nefasto de implodir o Estado Democrático. Pouco a pouco, o Brasil avançava nas respostas, seja pela CPI, pelas ações da PGR ou pelos julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Nunca se viu um país tão ávido por respostas para o desastre cometido naquele segundo domingo de janeiro. A cada delação, a cada imagem recuperada, a cada prova revelada, emergia não apenas a anatomia da tentativa de golpe, mas também o retrato cruel de um Brasil que havia sido envenenado por anos de desinformação e ódio cultivados no submundo das redes sociais. O que se buscava punir não era apenas a turba que quebrou vidraças e destruiu patrimônio público, mas o sistema invisível que, desde os bastidores, insuflava a massa e tentava sequestrar o futuro da nação.
Pista por pista, todos os caminhos se imbricavam na cabeça do golpe e, aos poucos, a máscara de muitos caía. Descobrimos que o plano tinha longa data e partia diretamente do Palácio do Planalto. Não era fruto de improviso, tampouco de uma turba descontrolada: havia método, financiamento e comando. O silêncio, cúmplice de quem deveria proteger a Constituição, tornou-se prova e as reuniões obscuras revelaram-se como capítulos de um roteiro previamente escrito para sabotar a democracia. Cada revelação desmontava a narrativa de que o 8 de janeiro fora apenas um ato espontâneo; era, na verdade, o ápice de um projeto de poder autoritário, incubado nos corredores do governo anterior e insuflado por uma máquina de desinformação que corroeu consciências e alimentou o ódio coletivo.
Na verdade, o 8 de janeiro não nasceu na Esplanada, mas nos gabinetes em que se conspirava contra a própria República. Ele foi alimentado por discursos inflamados, pela semente da mentira lançada diariamente, pela corrosão das instituições feita à luz do dia durante quatro anos de governo. Quando as provas vieram à tona, não restava dúvida: havia uma engenharia golpista, uma tentativa consciente de capturar o Estado e instaurar um regime autoritário. Não foi apenas um passeio, um turismo qualquer, mas a face mais crua de um projeto de ruptura. O bolsonarismo, que sempre flertou com a quebra da ordem democrática, mostrou-se em sua versão mais perigosa.
A responsabilização, portanto, não se limita aos que quebraram vidraças ou sujaram as paredes do Congresso; ela alcança aqueles que, do alto do poder, prepararam o terreno para a insurreição. É nesse ponto que a História pede clareza: não se trata apenas de punir culpados, mas de expor o projeto de destruição que se apresentou como governo. O bolsonarismo precisa ser lembrado como a cicatriz viva de um Brasil que esteve a um fio de se perder para a barbárie, mas também como a prova de que a democracia só sobrevive quando não há espaço para anistias silenciosas nem para esquecimentos convenientes.
Diante de discursos inflamados, das ameaças e confusões criadas em relação aos poderes por parte do ex-chefe do Executivo, somados aos desmandos durante a pandemia e à negação que resultou em 700 mil mortes, era impossível ignorar que o Brasil se encontrava sob ameaça constante de um projeto pessoal e autoritário. Um projeto que nunca se importou com a população, que manipulou dados, alimentou medos e enganou muitas mentes “inocentes”, transformando a desinformação em arma de controle social. Cada gesto, cada frase, cada ataque à ciência e à Constituição não era aleatório: era parte de um roteiro sistemático de corrosão do Estado, minando a confiança nas instituições e tentando normalizar a destruição como instrumento de poder. O país, assim, foi colocado em alerta máximo, obrigando cidadãos, jornalistas, instituições e operadores do direito a resistir diariamente contra a banalização do crime e a manipulação da verdade.
E diante de tantas feridas cultivadas, das tentativas de chantagem e dos tons ameaçadores, chegamos até aqui: para, enfim, colocar um ponto final nessa história e julgar, pela primeira vez, um ex-governante e outros sete envolvidos. Não se trata apenas de um processo judicial, mas de um marco histórico que simboliza a resistência da democracia frente à audácia do autoritarismo. Cada testemunho, cada prova apresentada, carrega o peso das vidas perdidas, das instituições abaladas e da confiança corroída ao longo de anos. É um momento de memória coletiva, um ponto de inflexão que reafirma que ninguém está acima da lei, que o país precisa enfrentar suas feridas e que a justiça, mesmo tardia, precisa ser visível, inegociável e exemplar para que nunca mais tentem transformar a sede de poder em destruição da ordem democrática. Também vai ficar como lição para aqueles que não têm noção do ocorrido: é preciso valorizar as instituições, conhecer a fundo as leis que regem o nosso país, acompanhar os debates sobre temas de interesse coletivo e entender que cidadania vai muito além de vestir uma camisa verde e amarela, portar uma faixa ou desfilar nas ruas.
Participar da vida democrática exige responsabilidade, consciência e engajamento real; exige compreender que a liberdade não é uma fantasia, mas um compromisso diário com a justiça, a ética e a defesa do Estado de Direito. Aqueles que foram iludidos ou manipularam outros serão lembrados, mas o que deve permanecer é a memória do que está em jogo quando se tenta destruir o país em nome de interesses pessoais: a própria democracia, que é o alicerce de toda civilização política.