É tanta pressa todo dia. Para levar a criança na escola, para bater o ponto, fazer o supermercado, para pagar a fatura do cartão que, inclusive, venceu dia 5.
Trânsito engarrafado. Motos nos corredores buzinando enlouquecidas. O automático exigindo passagem e a gente só observa e sobrevive.
A vida ordinária tem uma pressa predatória que absorve o nosso melhor. Esqueça a conversa com o vizinho no elevador, o jantar em família, as horinhas de sono a mais.
A rotina, a essa altura, já sugou toda a espontaneidade, a leveza e o viço de qualquer skin para devolver um bagaço chupado e exaurido de nós mesmos.
Fevereiro é ruptura
Mas eis que sempre chega fevereiro. E, somada à vitamina conferida pelo verão, uma energia diferente parece querer nos sacodir dos escombros da mesmice para nos devolver a nós mesmos.
A única pressa plausível agora é a das máquinas de costura zunindo um zig zag acelerado. Ninguém nem pense em pedir urgência para nada. A resposta em uníssono será: só depois do carnaval.
O cotidiano se rende à fantasia
Crianças esqueçam as aulas. Nada de farda nem chamada. Não se espantem se a mamãe aparecer fantasiada para colocar o almoço.
A partir de hoje a lição é aprender, na prática, como é que adulto, frente à realidade, ainda consegue sorrir.
Chegou a hora do tênis velho sair do armário e consertar os buracos que apareceram ao longo de uma volta ao sol. Nos sapatos, nas fantasias, em nós mesmos.
E desentocar aquela alegria negligenciada um pouco todo dia, mas que, tal qual o glitter no final da festa, permanece encrustada em algum lugar no fundo da gente.
É ônibus, carro, moto e gente. Muita gente confluindo para o mesmo lugar. Atrás de viver um momento onde a fantasia não precise pedir licença para chegar e ser vivida.
Ela, na verdade nós, voltamos a ser o cerne de tudo sem qualquer desculpa que nos tentaram impor.
A alegria como resistência diária
Mas a grande fantasia, não só do carnaval, mas de todos os dias, é acreditar que basta cantar que “eu queria que essa fantasia fosse eterna”, em frente ao Relógio de São Pedro uma vez ao ano “, para não sucumbirmos. Não é.
Para sobreviver e, mais, viver os outros 300 e tantos dias dos anos precisamos do sorriso e da alegria diariamente.
E não somente como alegoria do carnaval.
Se propor à felicidade é algo que compõe a ordem do etéreo. É a resistência em estado de graça frente à opressão.
Por isso é preciso conferirmos à alegria a mesma importância e entrega que concedemos aos nossos corres, medos e angústias.
Sorrir, buscar a felicidade diariamente é forma de resistência a tudo que nos empurra à barbárie e merece gozar do melhor da nossa energia.