A história prova que o Brasil tem uma paixão perigosa e viciada: a de transformar figuras públicas em heróis, seres que estão acima do bem e do mal. E na arena política, nos últimos anos, a emoção muitas vezes suplanta a razão. Neste sentido, a figura do “Justiceiro” ganha um brilho sedutor em meio ao tom burocrático e formal das instituições.Por um tempo, na última década, este papel foi interpretado de forma impecável por Sergio Moro na Operação Lava Jato. Ele surfou na onda personalista do super-herói, a face implacável da lei que, com decisões ágeis e midiáticas, culminaram na condenação do ex-presidente Lula. A imprensa e grande parte da sociedade o aclamaram, elevando-o a um status quase intocável. Sua atuação, vista como necessária e corajosa, era a resposta direta a um sistema que parecia inerte e corrupto.

Mas o nosso texto, diferentemente da manchete, tem a obrigação de olhar para trás e questionar. E a queda de Moro, sua ida para a política e as anulações de suas sentenças vieram para nos lembrar de que a justiça é um pilar da democracia, não um espetáculo individual, fruto de uma sanha pessoal. A busca por um salvador pode nos cegar para o que realmente importa: o devido processo legal e a salvaguarda do texto constitucional. Moro, no entanto, caiu em descrédito justamente quando assumiu de vez suas ambições políticas, se tornando ministro da justiça de um governo altamente corrupto e revelando que a utopia de um “Leviatã ético” por ele representado, era, na verdade, uma busca por protagonismo e poder, passando como um trator por cima de uma hierarquia de instâncias legais e institucionais para chegar no topo.

É nesse ponto que entra a atuação do ministro Alexandre de Moraes e do procurador-geral Paulo Gonet nos desdobramentos dos atos de 8 de janeiro como contraponto a performance da República de Curitiba. Desta vez, a narrativa atual não é mais sobre um “Justiceiro”, um herói que tem por lema o combate a corrupção, mas sobre o Estado, suas instituições e a defesa da Constituição de 1988. Enquanto a Lava Jato se tornou sinônimo de um homem e de um objetivo específico, a reação aos ataques ocorridos nos primeiros dias de janeiro de 2023 se firmou na figura de instituições como o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República. Suas ações, que levaram a investigações e acusações contra o ex-presidente Bolsonaro, não são a exceção, mas a própria regra, a resposta institucional a uma ameaça à ordem democrática, planejada desde os últimos anos do governo anterior.

A imprensa e a sociedade, com a experiência da Lava Jato, parecem ter uma nova lente. Em um cenário de polarização extrema e descrédito generalizado, onde a confiança nas instituições é abalada e a fé em mitos e super-heróis floresce, a atuação de Moraes e Gonet se destaca. Eles se tornam figuras de proa não por uma cruzada pessoal, mas por representarem a resposta de um modelo democrático liberal, volta e meia,ameaçado pelas aspirações pessoais. O que se celebra hoje não é o “herói”, mas a solidez do sistema, a capacidade dos poderes em resistirem à polarização violenta que assola o país. O desafio de Moraes e Gonet é justamente o de não serem transformados em “justiceiros”, de demonstrarem que a luta pela democracia não é um ato de vingança, mas o cumprimento estrito da lei. É a diferença entre uma “batalha de ideias” nas redes sociais e a aplicação fria e técnica do texto constitucional.

A verdadeira lição de tudo isso é que a justiça não se confunde com o show, onde as pessoas pagam para assistir. A espetacularização da lei, seja na ascensão meteórica de um juiz ou na exaltação de ministros, é perigosa porque nos desvia do que realmente importa: a consolidação das instituições. Portanto, esse texto não pergunta se Moraes e Gonet são heróis, mas tem a finalidade de convidar a refletir sobre a importância de que eles não precisem ser, pois a verdadeira força reside na democracia e na constituição, e não na figura de um homem só. Afinal, a história já nos mostrou, com a ascensão e queda de Sergio Moro, que o super-herói de hoje pode ser o vilão de amanhã, enquanto o verdadeiro pilar da justiça deve ser o processo, sempre imune à ambição e ao personalismo.

Enquanto isso, a sociedade precisa ser educada a não andar com as muletas imaginarias de que precisa de “um super homem”, que “faça uma mudança imediata”.

 

 

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