Leblon e Brongo. O que une lugares tão distintos em meio ao aumento diário das taxas de infectados e mortos de uma Pandemia?? O que liga duas localidades  com realidades tão diferentes,nas principais metrópoles do país, em meio a um cenário de guerra nas UTIs dos hospitais?? Talvez seja algo que explica melhor a pior face do brasileiro diante da atitude de não levar a sério uma grave crise de saúde pública, que se traduz em números assustadores para países com menos de 1 milhão de habitantes como a Islândia por exemplo.

As próprias cenas mostradas durante o último final de semana falam por si só e não precisa ir tão longe para admitir que isso é resultado de uma sociedade completamente ignorante,alienada e egoísta. Da mesma forma que há brasileiros solidários em diversos cantos deste país tão continental, existe também uma outra massa que insiste em desafiar a realidade, seja na mesa de um bar em um bairro nobre ou então nas ruas estreitas das grandes periferias. Este é o cenário que a COVID 19 quer nos mostrar em meio ao advento de um “novo normal”.

Entre um copo de cerveja e altos decibéis das caixas de som ensurdecedoras, o Coronavírus festeja o caos, bebendo e dançando na cara de uma realidade cruel, traduzida em números, pormenorizada nas ironias e deboches de quem não faz a mínima questão de vidas e corpos perdidos,pessoas com nome, sobrenome e sonhos enterradas em valas coletivas. Na flexibilização (ou não) do comércio, aos poucos, vemos que essa parte alienada da nossa sociedade abriu a guarda para a morte brindar na mesa de um bar e rebolar  na rua para os milhões de mortos e infectados. Veremos o resultado dessa orgia deliberada daqui há duas semanas.

Depois de duas semanas você vê o resultado

Um final de semana ensolarado pede um banho de mar, uma caminhada no calçadão e a contemplação da natureza nos parques. Mas com o isolamento social, recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e seguido por governos municipais e estaduais, isso não é possível. Entretanto, ainda vivemos em uma sociedade egóica, que trata o bem público como ente privado, no afã arrogante em considerar que devemos ter mais direitos que deveres, sobrepondo a lógica dos princípios do Direito.

Dessa forma, os mesmos que celebram, em uma panacéia generalizada, a abertura “irresponsável” de bares e restaurantes serão aqueles que reclamarão, daqui para a frente, da superlotação nas UTIs e colocarão a culpa, de forma incoerente, no estado. Em duas semanas veremos quem ri, de forma desdenhosa em meio as tulipas de cervejas e shots de whisky, chorar ou se desesperar frente a uma tragédia anunciada, o famoso “eu avisei”.

Da mesma maneira, os mesmos que promovem paredões nas ruas de bairros populares,farão o mesmo daqui há 15 dias, até porque o estado nunca esteve aí para eles e os mesmos nunca estiveram aí para a coisa pública, resultando na falta de uma consciência cidadã.

E por que estou mensurando isto neste espaço de tempo delimitado?? Pois é o período em que o Novo Coronavírus atua no seu raio de infestação. É por esse tempo mensurado que as autoridades têm a percepção do que fazer ou planejar para que haja medidas de adoção ao enfrentamento da doença, se tomará uma política mais branda,moderada ou dura, conhecida tecnicamente como Lockdown.

Consciência cidadã

O que une áreas onde estão concentradas a extrema riqueza e a pobreza absurda é a carência de uma consciência cidadã, de reconhecer-se como parte de um coletivo que forma a sociedade de um modo geral. Grupos que se encontram dentro de lugares de área nobre ou de áreas pobres terão uma visão confusa ou irreal do que é cidadania, em cada conceito subjetivo. Ver a atitude de uma pessoa que considera a profissão acima da cidadania em uma matéria veiculada no Fantástico no último domingo (05) diz muito sobre essa forma peculiar de interpretar a ação de ser ou estar em uma cidade, neste espaço diverso e coletivo.

Por títulos, sejam eles acadêmicos ou de nobreza, acima do status de cidadão, subtende-se que, para grupos que levam em conta a condição social ou financeira, a coletividade não é algo essencial para se viver a cidadania. Com a pandemia, a “consciência cidadã no ato de ter” está evidenciada e execrada atualmente, sinais de uma aparente evolução na sociedade.

Com a mudança no padrão dos conceitos, a consciência no uso da máscara, bem como ao respeito às regras de distanciamento em locais públicos e ao isolamento social se tornam um termômetro da nossa socialização, onde o cidadão possa se ver pertencido em uma realidade vivida por todos, seja em um duplex no Caminho das Árvores ou em um barraco na localidade de  Nova Constituinte. No contexto atual, a COVID 19 vai possibilitar que o conceito de cidadania possa, de fato, ser exercido em sua essência, dentro de uma perspectiva do coletivo.

Em pleno ápice de uma situação caótica trazido pela pandemia, cenas vistas no último final de semana, seja no Leblon, no Brongo ou na Orla da Ribeira serão consideradas como um exemplo, não apenas de desrespeito às regras de sobrevivência, mas sim de descaso com os conceitos de cuidado e cidadania, que não está no sentimento individual, mas assim na ação coletiva.

Para finalizar, lembre-se daquela festinha de final de semana quando o Coronavírus bater a porta do seu sistema imunológico, acarretando uma outra aglomeração, a da UTI.

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