O caos é a palavra de ordem no ano de 2020.É por ele que as coisas se revelam, vem a tona, se mostram sem truques, retoques e nem programas de edição.Dessa forma, Bielorrússia e Líbano experimentam essa sensação, onde bastou um estopim, uma tragédia para revelar mazelas, facetas de um sistema político corroído por velhas práticas que afunilam o fosso social.
O que une essas duas nações é a sensação de que o caos liberta e é por ele que a verdadeira face da política,( e dos políticos) se apresenta. No antigo território soviético, os resquícios da mão de ferro de um estado centralizador resiste,não apenas nas ruas e logradouros de Minsk, mas nas práticas e nos expedientes de um político caricato, que governa há 26 anos um país que adota o status de república presidencialista só no nome. No Líbano, antigo território árabe que pertenceu ao Império Otomano e a França sucessivamente, uma explosão revelou um país, destroçado por tantas guerras e reconstruído várias vezes, pobre e desgastado, governado por um sistema onde política, religião e corrupção dão as cartas.
Bielorrússia -Lukashenko e a Mini União Soviética
Herdeiro do sistema soviético de governar um país, típico das linhas stalinistas, Aleksandr Lukashenko, fez da nação, independente desde 1991, sua pequena União Soviética e acumula mandatos seguidos com mãos de ferro. O país ainda mantém a estrutura administrativa do país que, durante grande parte do século XX, ameaçou a hegemonia capitalista estadunidense, protagonizando uma rivalidade político e militar com a tal “superpotência”.
Lukashenko governa a Bielorrússia de forma autoritária e mantém o país economicamente dependente da Rússia, usando referendos para mudar a Constituição, conseguindo,assim, amealhar mais poder, se reelegendo diversas vezes. Com um parlamento privado de poderes e uma imprensa totalmente amordaçada. o “presidente” é o retrato das lembranças de um tempo em que a máquina política soviética era usada para vender a ideia de uma nação forte e próspera, uma casca que esconde, em seu invólucro, um sistema ultrapassado e corroído pelo personalismo e pela corrupção.
O atual presidente bielorrusso, usa de seu poder autoritário para se segurar na cadeira, reprimindo protestos contra mais uma reeleição. E nessa “democradura” ( neologismo inventado por Raimundo Varela em seus espasmos de indignação), os bielorrussos se vêem cada vez mais próximos do fundo do poço e longe das benesses de compor a União Europeia. Lukashenko é o passado no presente, que não traz solução efetiva para combater o Coronavírus,apenas uma dose cavalar de vodka, saúna e hóquei.
E, nesta brincadeira negacionista, lá se vão vidas, ora presas e repreendidas pelo aparelho repressor do estado, ora perdidas e afetadas por conta das atitudes “neostalinistas” de uma autoridade recém saída de um filme produzido por Hollywood. Depois do “duvidoso” resultado no último pleito, as ruas de Minsk fervem diante do enfrentamento entre os opositores e as forças do governo. Ao todo, até então, foram mais de 5000 detenções e dois mortos.
Ao site português “ O Observador”, a escritora Svetlana Alexievitch,uma crítica ferrenha ao atual governo,disse que o presidente Lukashenko conduz o país para uma guerra civil e saudou a principal opositora do atual governo, Svetlana Tikhanovskaia, que acabou se refugiando na Lituânia,após o resultado “suspeito” do último pleito.
Líbano – A crise entre destroços
A carga de Nitrato de Amônio que explodiu no Porto de Beirute no início do mês, revelou,entre destroços, um país esfacelado por um sistema político e econômico que tem como base a religião. O país, que sempre renasceu de guerras e catástrofes, agora vive seu momento mais dramático.
A tragédia, que acabou (literalmente) com a capital. escancarou uma elite política corrupta e omissa diante de tantas mortes. Os que sobreviveram ou perderam tudo, ou ainda estão procurando alguém (ou algo) nos destroços do que foi implodido.A carga, que veio da Moldávia e tinha Moçambique como destino, foi barrada em Beirute e, sem o armazenamento adequado, ficou exposta em um galpão.
Diante do descaso das autoridades libanesas, que vitimou milhares de pessoas, o país segue em uma crise econômica com a desvalorização de aproximadamente 80% em sua moeda. Os libaneses amargam, ainda, constantes quedas de energia e falta de alimentos nas prateleiras dos supermercados. Sem emprego,sem comida e sem perspectivas, o estado de miséria foi descortinado por 2750 toneladas.
Em um estado de “terra arrasada”, os libaneses foram às ruas protestar contra uma classe corrupta insensível e indiferente a situação posta. Muitos deles, tanto a situação, quanto a oposição, saquearam seu povo por sucessivos governos e isso levou o país a esta bancarrota, o que culminou na tal catástrofe,sentida além Mar Mediterrâneo, acobertada durante anos por vistas grossas.
O Líbano, ultimamente, virou um mar de exploração onde empresários gananciosos, ligados também a classe política local, lucram em cima da necessidade de energia elétrica. Segundo o texto da jornalista Diana Hodali, publicado no site da Deutsche Welle (DW), aeroportos,praias e diversos logradouros sofrem com o acúmulo de lixo e, nessa montanha.foram encontrados plásticos e resíduos químicos. Para piorar, assim como no Brasil, em 2019 o país sofreu com as queimadas e,por tabela, o governo não tinha condições para apagar as chamas.
Diante do que foi descrito, a carga de nitrato não só destruiu boa parte de Beirute, mas implodiu o pacto democrático entre o povo e as autoridades, traduzido em um valor, respeito. Dias após, o primeiro ministro Hassan Diab renúncia e protagoniza um dos papéis mais cinicos já vistos por uma população cansada de tantos desmandos, ao dizer que “…o sistema corrupto é maior do que o Estado, que o Estado está amarrado a esse sistema e que não há como nos livrarmos dele” . Neste teatro com um enredo trágico, os libaneses pedem eleições e também o afastamento de todas figuras políticas que compõem um sistema devastado que ainda tenta se segurar diante dos destroços.
Sob as ruínas do porto, totalmente destruído, uma faixa mostra o que hoje simboliza o Líbano revelado por uma explosão. “ O governo fez isso.”.
Sob o Caos- A luz
Diz a lógica que certas coisas acontecem para nos revelar algo que precisa ser consertado. O que une dois países, distantes por milhares de quilômetros, não é apenas a pandemia do COVID 19, mas sim a negligência dos políticos, que usam do estado de caos social para se segurarem no cargo. Nem precisa ler Maquiavel para ter a noção negativa de que o poder pode ser sedutor, quando tem o intuito de corromper e destruir os valores mais puros.
Sob o caos que une Bielorrússia e Líbano, a luz de outros tempos onde a ignorância e a ganância do que é velho tenta se segurar nas cordas do que ainda resta de sistemas políticos ultrapassados para os tempos que deveremos viver daqui para a frente. E não será um contrassenso falar que o caos vivido por bielorrussos e libanos revela a luz de novos tempos e assim só tempo dirá que rumos estas duas nações vão tomar em um breve futuro.