O caso do goleiro Cássio, atualmente no Cruzeiro, veio à tona nas últimas semanas e gerou debates nas redes sociais entre famílias atípicas e a comunidade autista. A razão: a dificuldade enfrentada para matricular sua filha, Maria Luiza, de sete anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A menina teve seu ingresso negado em uma escola regular de Belo Horizonte.
Em um comunicado publicado em sua página, Cássio desabafou sobre a dificuldade em encontrar um local acolhedor: “Tenho tentado matricular minha filha em diferentes escolas, mas a resposta quase sempre é a mesma: ela não é aceita.”
O goleiro também criticou escolas que adotam um discurso inclusivo, mas que na prática agem de forma diferente: “O mais triste é ouvir isso justamente de escolas que se apresentam como ‘inclusivas’, que dizem aceitar todos os tipos de crianças. A realidade, no entanto, é bem diferente.”
Situações como a de Cássio e Maria Luiza são cada vez mais comuns entre famílias de crianças autistas em idade escolar. O desafio de encontrar uma instituição capaz de aceitar uma criança atípica junto a colegas neurotípicos cresce à medida que o desinteresse de escolas, que deveriam acolher sem distinção, se torna evidente. Seja por falta de estrutura, capacitação de profissionais ou outros motivos que revelam claramente a ausência de vontade de oferecer oportunidade a meninos e meninas com TEA, a exclusão persiste.
No caso de Cássio, o que se vê não é apenas má vontade, mas uma violação de direitos previstos em leis como a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e a Lei 12.764/12 (Lei Berenice Piana). Mesmo sendo um atleta de alto rendimento, Cássio não conseguiu superar a falta de acolhimento, que se esconde sob justificativas diversas. O que parece ser “falta de vontade” se revela, com o tempo, como um projeto bem-sucedido de exclusão de crianças autistas e de outras que nascem com o espectro.
Vendo essa situação pelo ângulo mais cruel da invisibilização, entendemos que a luta por aceitação no ambiente escolar é longa e árdua. O discurso da inclusão, muitas vezes, existe apenas para “inglês ver”. Sempre foi assim e, enquanto a educação for tratada como mercadoria, nada mudará.
A dificuldade enfrentada por Cássio expõe a dolorosa realidade de muitas famílias atípicas: serem vistas e exercerem direitos. Mesmo com toda a estrutura necessária (Maria Luiza tem acompanhamento especializado), Cássio se tornou mais um número na estatística da invisibilidade. Escolas públicas e privadas refletem um país despreparado para acolher a diversidade. Em prol do lucro, se tornaram máquinas de fazer dinheiro e resultados, embaladas por marketing persuasivo.
Recusar matrícula a uma criança com TEA, ainda que disfarçada por alegações de “falta de estrutura”, revela o despreparo do nosso sistema educacional. A verdadeira inclusão exige que as escolas não apenas abram suas portas, mas se transformem: investimento em apoio pedagógico, formação de professores e comprometimento real. A inclusão não é um favor; é a base para uma sociedade plena e sustentável.
O caso de Cássio e Maria Luiza, mesmo com a visibilidade de um atleta de renome, ilumina a invisibilidade de inúmeras famílias que lutam por uma educação digna. Ele nos obriga a encarar a dura realidade: a batalha pela inclusão não é apenas dos pais e mães atípicos, mas de toda uma sociedade que deseja um mundo melhor para os “futuros adultos”. A mudança real só virá quando a educação deixar de ser tratada como máquina dee”fazer dinheiro” e se tornar, de fato, uma porta aberta para todos. Como pessoa atípica, me somo a este clamor por dias melhores.