No último sábado (08), o Brasil chegou a marca de 100.543 mortes creditadas a pandemia de COVID 19. No dia seguinte, o país conheceu mais 3 milhões de casos. Mesmo tergiversando contra a realidade, é possível admitir que contra números não há argumentos e eles dizem muito sobre a maneira como NÓS ( é isso mesmo,NÓS) tratamos o problema que se avoluma entre vidas perdidas e afetadas desde o final do mês de fevereiro.
Mesmo que a conta caia nas costas do atual presidente (e ele é um dos grandes responsáveis por chegarmos nesta triste marca), não fizemos a lição de casa e nem agimos da forma como deveria. O isolamento social, da forma como a Organização Mundial da Saúde propos, não foi comprido e continuamos vivendo como se um problema de ordem sanitário não estivesse acontecendo. Assim como Bolsonaro, minimizamos a pandemia como uma gripezinha e a encaramos como um resfriadinho, em meio a aglomerações na expectativa pela abertura do comércio.
Entre as frases desdenhosas do presidente, os atos do atual executivo para sabotar as ações do Ministério da Saúde nos primeiros meses, sem contar as filas intermináveis para receber o auxílio emergencial. causadas pela “proposital” falta de planejamento,além do descaso de parcela da população, que desfilou em carreata contra o isolamento, saiu este resultado lastimável. Este 100 K de mortos diz muito sobre o que não deveríamos ter feito nestes quase cinco meses enfrentando crises de ordem sanitária e política.
Editoriais Duros
A Folha de São Paulo e o Jornal Nacional lançaram editoriais bem duros, algo que nem Lula e Dilma experimentaram (e olha que eles passaram por pressão ainda maior de ambos os meios). O jornal da Familia Frias, em um texto intitulado “Luto”, culpou Bolsonaro pelas mortes e responsabilizou o atual presidente por negar, de todas as formas, a gravidade do estado de emergência e pelo fato de não exercer a liderança de uma ação nacional, que deveria envolver prefeitos,governadores, ministros,secretários e população.
Além do mais, o texto reforça que o Novo Coronavírus, provavelmente, será a terceira causa de mortes no ano de 2020 e,mesmo ciente da realidade posta pelos números, o presidente, que teve uma leva de ministros e assessores infectados em sua equipe desde o início da quarentena, exalta um remédio, sem eficácia comprovada, como a nova panaceia de cura.
Mesmo com a Folha e São Paulo, de forma contundente, batendo forte, a bala de prata que atingiu a já desgastada imagem do “tal Messias” foi atirada pelo Jornal Nacional. O principal produto jornalístico da Rede Globo começou sua edição de sábado citando o texto do artigo 196 da Constituição Federal de 1988 (CF 1988). E foi mais,além: A voz de Renata Vasconcellos ecoou como um “soco no rim” ao lembrar que estamos sem um ministro da saúde titular há 85 dias. Desde então, um dos ministério mais importantes do governo (junto com a pasta da educação) conta com militares em cargos loteados.
Já William Bonner lembrou das frases que foram proferidas pelo atual presidente no calor do desdém, da naturalidade de uma tragédia. De forma dura, o JN ressaltou a posição antagônica e controversa do mesmo frente às medidas tomadas por cientistas e governadores,além da indecisão que foi provocado na população que, sem entender o que estava acontecendo, assistia a esse “combate desnecessário” de forma perplexa.
O jornal finalizou seu texto com críticas ao isolamento, feito de forma “capenga”, e lembrou das filas que se formaram nos hospitais devido à falta de medidas pontuais na compra e implantação dos leitos de UTI, cobrando dos governantes o cumprimento do texto constitucional. O editorial, que tomou cinco minutos de toda edição de sábado e abriu à reportagem especial a seguir, foi enfático e ,possivelmente, um dos mais concisos e duros já feitos pelo principal telejornal do horário nobre.
De acordo com o colunista da UOL,Mauricio Stycer,diferente do Jornal Nacional, os telejornais das emissoras concorrentes trataram o fato como distante da esfera federal ou como algo sem importância.
O Contrato Social
Diante da leitura interpretativa feita aqui nos textos dos dois editoriais, é necessário entender que não são apenas números no universo de 3 milhões de infectados; são vidas perdidas pela negligência do estado,personificada na incompetência de Jair Bolsonaro, que destituiu dois ministros da saúde, médicos, por não se alinharem a ideia de uma cura pela cloroquina. Entre a comprovação científica e o charlatanismo insensível, nos restou, de forma inglória e incoerente, viver ( ou sobreviver) a segunda opção.
Do pouco que foi investido, o estado brasileiro gastou mal e de forma despropositada, afetando diretamente nas nossas vidas, no cotidiano. Ficamos em casa (para quem agiu de acordo com o sugerido pelos cientistas), assistindo, atônitos, a uma sucessão de fatos que descambou neste número. Só perdemos, em mortes, para os Estados Unidos, e, se o atual presidente continuar neste ritmo, ultrapassamos os estadunidenses (ou não!!!).
Diante de tudo o que foi visto nestes meses, é possível (e necessário) concluir que fizemos um contrato social com o poder executivo.Nas atitudes, nas frases e no desdém, cavamos os túmulos e vendemos curas enganosas, como a “suposta” semente, oferecida pelo apóstolo Waldemiro Santiago. Da corrida desenfreada pelo estoque de álcool gel e máscaras ao consumo de “placebos” como Cloroquina, Ivermectina e Azitromicina. o brasileiro tratou, de forma atabalhoada e sem coerência, o problema posto pela COVID 19.
Tratamos a quarentena como férias eternas e normalizamos as tragédias feito um “arroz com feijão”, como diria o biólogo Atila Iamarino. E neste normal,encarado pelo cotidiano frio,naturalizamos as 100 000 vítimas mortas como se fossem números, nada mais. Desde maio, venho denunciando tais atitudes em textos outros e constatando que o tal “novo normal” só chegará se tomarmos uma outra postura diante da realidade imposta pela pandemia.
Cinco meses depois do primeiro caso no país, só podemos substituir o “ E daí?” por “Até Quando?”. São mais de 100.000 vidas mortas, mais do que o esperado e pode piorar.