A cena de uma batida de carro nas primeiras horas da manhã em São Paulo poderia ser mais uma em meio às estatísticas dos acidentes ocorridos pela combinação do excesso de bebida alcoólica e velocidade. Poderia, mas não passou despercebida até mesmo pelo noticiário do horário nobre devido aos protagonistas deste caso, os influencers Gato Preto, Bia Miranda e o Porsche 911 S Cabriolet, modelo ano 2020, avaliado em, aproximadamente, R$ 800 mil. Mesmo com ambos e seus acompanhantes sem sofrerem as sequelas físicas, o que chamou a atenção foi a falta de assistência a vítima de um carro atingido, antes do esportivo de luxo bater no poste. Segundo testemunhas, o casal foi embora do local sem que nada tivesse acontecido.
Horas depois do fato ocorrido, Gato Preto, que se recusou a fazer o teste do bafometro, foi encontrado em seu apartamento, em Guarulhos, na Grande São Paulo, acompanhado de outras duas mulheres. Já a suposta neta de Gretchen, apesar de ter sinalizado arcar com os custos da indenização à vítima, aproveitou a repercussão para divulgar jogos de apostas nas redes sociais. O casal tem, ao todo, milhares de seguidores nas redes sociais e mostram vídeos ostentando luxos inimagináveis para grande parcela da população, tudo isso sustentado com a miséria alheia, por meio da divulgação dos jogos online, verdadeiros caça niqueis da vida moderna.
Este Brasil, envolto em narrativas de oportunismo,onde as pessoas, por meio das redes sociais, são seduzidas com imagens e vídeos, se mostra da pior forma possível. Eles são consumidos e divulgados por meio de fotos onde a ambição performa de maneira escancarada, com luxo, ostentação e festas nababescas, alimentados pelos “likes” e visualizações de uma plateia cumplice e iludida pelo que é vendido nas redes, incentivado e patrocinado pelos sites de fofoca.
Diante disso, é possível afirmar que este pedaço de Brasil, movido pela lógica viciada dos algoritmos, é o puro suco do que não presta, consumido por pessoas que concordam com a ilusão de uma vida “facil”. O exemplo está na CPI das Bets, onde influencers transformaram uma comissão que investiga as movimentações das casas de apostas online em um teatro de horrores, uma ocasião perfeita para performar o escárnio e a indiferença. É só lembrar a participação da Virgínia Fonseca, conhecida por divulgar e vender uma marca própria com produtos de procedência e qualidade duvidosa.
E por falar em política, esses personagens, que antes eram subcelebridades de reality shows e de vídeos ensaiados para o TikTok, encontraram no Parlamento um palco ainda mais rentável. A política se transformou, para eles, em instrumento de autopromoção: cada fala vira corte para as redes sociais, cada projeto irrelevante serve apenas como pretexto para estampar a própria imagem em outdoors digitais. Não legislam, performam. Não defendem o povo, defendem o próprio engajamento.
É assim que a degradação da nossa sociedade avança: influencers que vendem apostas travestidas de oportunidade agora vendem promessas vazias travestidas de mandatos. E se elegem, porque uma parte considerável do Brasil prefere o espetáculo ao conteúdo, o deboche ao compromisso, a ilusão ao enfrentamento da realidade,pois tudo vira entretenimento para engajar mais e mais.
Por fim, o Brasil que não presta não está apenas no Porsche que destrói carros e vidas na fria madrugada paulistana. Está também na cadeira estofada dos parlamentos, ocupada por quem transforma a política no mais rentável dos publiposts.