Nos últimos dias, o Brasil tem flertado com o colapso institucional, num teatro onde política e diplomacia se chocam como placas tectônicas. Desde a armadilha criada pelo aprendiz de Napoleão — o senhor Donald Trump — ao impor uma taxação de 50% sobre nossas commodities, o país entrou em evidência, o que rendeu ao presidente Lula uma capa honrosa no New York Times ao reagir com firmeza às investidas do neotirano estadunidense .
Enquanto isso, no palco interno, as ações do STF, na figura do ministro Alexandre de Moraes, têm por objetivo encerrar a saga política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso serviu de pretexto para que setores ultra raivosos da extrema direita, com o respaldo velado da Casa Branca, emergissem dos escombros morais pedindo impeachment e anistia — palavras que não cabem na boca de quem outrora clamava pela volta dos tempos mais sombrios da nossa democracia.
A esses senhores — de coturnos gastos, salivas podres e olhos voltados para um passado de fardas e censura — não interessa o povo. O lema não é lutar por saúde, educação ou justiça. A missão é proteger um líder torto, um ex-governante que arrastou o país para a vala fétida do obscurantismo, numa tentativa insana e saudosista de nos transformar numa republiqueta verde e amarela. Dia após dia, esse grupo que veste o terror com gravata e paletó de boas intenções nos bombardeia com o “terrorismo moderno”. E o que buscam não é menos que isso: aniquilar cada fiapo de sanidade que ainda ousa resistir.
Sem a intenção de eleger um super-homem para os dramas atuais, o que Alexandre de Moraes tem feito é, nada mais, nada menos, do que cumprir o papel que lhe cabe: defender, com firmeza, o texto constitucional e zelar por seu cumprimento. Bolsonaro, por si só, é o antônimo vivo de tudo o que o STF simboliza. Mas o que esperar de alguém que, por anos, gabaritou com excelência as páginas do Código Penal — senão bravata, gritaria e confusão?
No meio do vendaval que assola as suas instituições, o Brasil tenta se equilibrar sobre os escombros deixados por um governo que flertou com a barbárie. Enquanto a extrema-direita grita por anistia, como se fosse possível apagar a memória do caos, a justiça caminha — ainda que a passos duros — rumo à reparação.
Infelizmente, diante desse cenário de “quase” terra arrasada, por mais que doa admitir, o atual Congresso Nacional é, sim, o reflexo da própria sociedade que diz não se ver nele e os dados das últimas pesquisas apontam exatamente isso. Ele é o espelho de nossas omissões, das barganhas morais seladas nos corredores do poder e do conforto cúmplice dos toques de tela nas redes sociais — onde todos julgam, mas poucos se responsabilizam. Não adianta exigir representatividade quando se vota por ressentimento e revoltas sem sentido.
E se há algo que esse tempo presente nos ensina, é que a democracia, quando ameaçada, exige não só votos, mas coragem, memória e vigilância. Que os tribunais julguem, sim — mas que a sociedade não esqueça, nem terceirize sua consciência. Porque há fantasmas que só voltam a assombrar quando o povo adormece. E o sono político, esse sim, é a verdadeira arma de destruição em massa.