Tiroteio em bairro residencial a beira da orla. Pixações de grupos marginais em pontos turísticos da capital baiana em um ato de demarcação de território. Nas áreas periféricas, a falta de liberdade anda lado a lado com a insuficiência dos serviços públicos como saude e transporte. Assim fica ( e está) o retrato de uma das principais capitais da região nordeste e do país. Antes tida como “Terra da Felicidade”, por ser um dos principais destinos turísticos do país, dada a beleza de suas praias e a criatividade cultural do seu povo, Salvador está marcada sob o signo da violência urbana, cenario antes restrito às grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.
Nos últimos anos, Salvador tem ocupado, com inquietante constância, o ranking das 20 cidades mais violentas do país e figura entre as 50 mais perigosas do mundo. Essa permanência no triste pódio expõe um enredo que vai muito além das estatísticas: raízes históricas que alimentam a desigualdade social e econômica e que, hoje, encontram na negligência do poder público um terreno fértil para se perpetuar. Soma-se a isso o alto custo de vida, que agrava as fraturas sociais e empurra ainda mais a população para a beira do abismo. É só olhar o preço da tarifa de transporte público, que aumentou além do poder de acesso de grande parte da população.
Não obstante, a obsessão em priorizar o aspecto econômico — inflando a indústria do turismo sem enxergar a cidade como um organismo vivo — nos trouxe a este cenário de caos e insegurança no pós-pandemia. A chegada de facções como o Comando Vermelho e a ascensão de grupos locais, como o Bonde do Maluco, encontrou terreno fértil nas lacunas deixadas pelo poder público municipal. Aos poucos, esses espaços foram ocupados. Hoje, a segurança pública carrega sozinha um fardo que deveria ser dividido, tentando conter a maré da violência enquanto o município ainda não compreende que enfrentar esse problema exige mais que ações pontuais: requer uma política integrada, profunda e contínua, envolvendo assim diversas áreas que visam unir esforços.
Por outro lado, a segurança pública, que é responsabilidade do Estado, enfrenta suas próprias feridas. Ainda que haja investimento — especialmente em inteligência e investigação — falta um corpo policial devidamente preparado e valorizado. Remuneração justa, plano de carreira digno, condições de trabalho adequadas e, fundamentalmente, uma formação humanista, que enxergue o policial como agente social e não como carrasco ou inimigo da população, são demandas urgentes. Sem isso, a máquina do Estado continuará funcionando com engrenagens emperradas, presas a uma concepção arcaica — marcada pela herança da eugenia criminal, alimentada pela ditadura militar e pelas gestões carlistas —, incapaz de agir com eficiência e humanidade.
No entanto, é preciso reconhecer que a segurança é uma responsabilidade para além do poder público. Ela também é reflexo da nossa formação social, de valores coletivos que deveriamos cultivar . É um pacto coletivo — que exige participação, consciência e compromisso de todos —, pois nenhuma política de Estado será suficiente se a própria sociedade continuar reproduzindo a indiferença, a desigualdade e a violência que diz combater.
Dessa forma, enquanto a cidade vende cartões-postais para o turista consumir, seus próprios filhos — muitos deles empregados nessa indústria sem chaminés chamada TURISMO — vivem acuados entre o medo e o esquecimento. Salvador não precisa apenas de policiamento ostensivo na Barra e no Subúrbio para resolver um problema que atravessa décadas e gestões: precisa de ações concretas, de coragem política e menos vaidades eleitorais. Precisa de um pacto social capaz de curar as feridas abertas pela desigualdade, devolvendo dignidade às periferias e segurança às ruas.
Até lá, a “Terra da Felicidade” seguirá sendo, para muitos, apenas um slogan desbotado diante da realidade crua que ecoa nas esquinas mal iluminadas — um grito persistente, moldado pela negligência de todos