A votação das PECs da Blindagem e da Anistia, na última semana, escancarou um Congresso preocupado apenas consigo mesmo. No comando da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) mostrou-se como um personagem principal do jogo político mais rasteiro: sem palavra, sem pulso e sem firmeza. Virou fantoche de interesses próprios, aliado ao que há de mais atrasado no Nordeste — as velhas oligarquias familiares. O que se viu em Brasília foi o reflexo de um Brasil que precisa mudar se quiser acompanhar o avanço das pautas progressistas no mundo atual.

A reação da Câmara às últimas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) foi puro corporativismo. Deputados tentaram se blindar enquanto atacavam os ministros. A condenação de Jair Bolsonaro e de outros envolvidos na tentativa de golpe abriu uma corrida pela fiscalização e pela criminalização do orçamento secreto — apelido elegante para os desvios de verba — e das emendas “pix”, aquele dinheiro fácil tão esperado por prefeitos e parlamentares em seus redutos eleitorais. Cerca de 80 deputados estão agora na mira do ministro Flávio Dino, que se apresenta como grande paladino da moralidade diante da farra das emendas parlamentares.

Nas redes sociais, a resposta foi imediata. Milhares de críticas revelaram um país diante do espelho, chocado com a própria imagem. O que se vê é uma nação remendada por grupos de poder que atuam contra os interesses populares. Sempre foi assim, mas agora está claro demais para ser ignorado.

As pesquisas de opinião confirmam esse desgaste. O índice de confiança no Congresso caiu ainda mais após a votação, mostrando que a distância entre parlamentares e sociedade segue crescendo. Para a maioria dos brasileiros, a Câmara transformou-se em palco de barganhas, distante dos problemas reais do país. Nesse cenário, a chamada “dosimetria de pena”, empreendida por Michel Temer, Aécio Neves e Paulinho da Força, surge como uma tentativa atabalhoada de colocar panos quentes no estrago causado — mas, em vez de reparar a imagem, reforça a percepção de que deputados legislam apenas em causa própria. A intenção de pacificar o país pode agravar ainda mais a polarização tóxica em um cenário político altamente fragilizado.

Além disso, esses senhores, ensimesmados em sua redoma de interesses e no alto de suas irresponsabilidades, abriram um precedente grave: o voto secreto, a deliberação sobre quem pode ser julgado e o conluio cada vez mais escancarado com o crime organizado. O resultado é um abalo profundo na credibilidade da instituição, hoje vista por muitos como sinônimo de privilégios e impunidade.

Nas ruas e nas redes, o sentimento é de desalento permanente com a atividade parlamentar. O Congresso, que deveria representar a sociedade, hoje reflete apenas o seu próprio jogo de poder — e esse espelho devolve uma imagem que o Brasil já não suporta mais encarar. A tentativa de fundar, por lei, um sindicato de deputados pegou mal e escancarou uma casta de gente egoísta, legislando pelo condão de seus próprios interesses.

Após a condenação de Bolsonaro, o Brasil acordou mais atento às artimanhas de ratos dissimulados, que não possuem mais vergonha de mostrar suas mazelas na cara dura. Com a aprovação, cabe agora ao Senado — que se posicionou contra essa excrescência — corrigir o estrago feito pela Câmara. Mas o espelho não devolve apenas imagens de corrupção e impunidade: ele nos desafia a olhar para dentro de nós mesmos, a medir nossa ética, a questionar a política que acompanhamos, a examinar com cuidado a quem entregamos nosso voto e a construir, no cabedal de conhecimentos que cultivamos, a consciência capaz de transformar a sociedade que desejamos.

Do contrário, continuaremos enxugando gelo, entregando um cheque em branco assinado para aqueles que, de quatro em quatro anos, se elegem em causa própria.

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